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Ben Platt diz que teve medo de protagonizar o filme “Dear Evan Hansen”: “Emocionalmente difícil”

Ator falou também que se identifica com a trama do musical e revelou os desafios de revisitar o personagem da Broadway que mudou sua carreira

Ter a oportunidade de assumir em um filme o mesmo papel que viveu no teatro é um privilégio para poucos e o ator Ben Platt sabe disso. O personagem Evan Hansen, além de emocionar o público levantando questões sobre saúde emocional, é um marco na carreira do ator vencedor do Tony Awards. “Eu não poderia ter desejado uma experiência mais incrível e me sinto muito privilegiado por saber que o musical abriu a porta para o que agora é minha carreira”, comentou o protagonista de “Dear Evan Hansen”. Ben, que nesse musical realizou o sonho de fazer parte do cast original de uma produção da Broadway, contou que “medos e crises de ansiedade” o fizeram questionar se ele deveria voltar a viver Evan na versão cinematográfica do musical. “É um personagem emocionalmente e mentalmente difícil de habitar.” O artista decidiu assumir o desafio ao entender que essa história quebraria as barreiras da Broadway e chegaria a um público muito maior que, assim como ele, poderiam se identificar com os conflitos de Evan. Em uma entrevista preparada pela Universal que o B! divulga com exclusividade,  Ben falou dos desafios de revisitar esse complexo personagem, das experiência de contracenar com as atrizes Julianne Moore, Amy Adams e Kaitlyn Dever e opinou sobre a relevância da trama em meio a pandemia da Covid-19.

Confira a entrevista na íntegra:

O que significou para você fazer parte de “Dear Evan Hansen” na Broadway?

Ben Platt: Foi um sonho que não imaginei que se tornaria realidade! Sou um nerd de teatro musical desde os 6 anos de idade e meu maior sonho sempre foi fazer parte de um musical original, que foi escrito do zero, para conseguir originar um papel na Broadway e deixar minha marca. Além disso, o espetáculo tem um lado emocional e discute algo muito importante, mudando as perspectivas de tantos jovens e levantando diálogos. Fora que também consegui interpretar um personagem que estava lidando com a ansiedade, que é algo com o qual eu também lido. Eu não poderia ter desejado uma experiência mais incrível e me sinto muito privilegiado por saber que o musical abriu a porta para o que agora é minha carreira. Por isso, sempre terei muito amor pelo musical e pelo personagem do Evan Hansen.

O que passou pela sua cabeça quando soube da possibilidade de voltar a interpretar Evan Hansen, desta vez no cinema?

B.P.: Muitas coisas! Fiquei bastante nervoso, pois tenho muito orgulho do legado do show na Broadway e me dediquei muito a essa experiência, eu tenho memórias maravilhosas desse período que eu não queria necessariamente reabrir ou mexer, porque o Evan é um personagem emocionalmente e mentalmente difícil de habitar. Mas todos esses medos e crises de ansiedade foram superados apenas pela empolgação da ideia de quantas pessoas seriam capazes de ver essa história e se conectar com o personagem do filme. Também fiquei muito grato por ter a oportunidade de imortalizar uma performance que significou tanto para mim. Como ator de teatro musical, é muito raro ter a oportunidade de interpretar seu próprio papel na tela, então me senti muito feliz e grato por eles terem me pedido para fazer isso.

Quem é o Evan Hansen aos seus olhos?

B.P.: Ele é um personagem difícil e muito tenso, mas ao mesmo tempo alguém a quem obviamente aprendi a amar. Evan Hansen é extremamente tímido e estranho, ele tem muita dificuldade em se conectar e viver em qualquer lugar fora de sua própria mente – algo com o qual eu certamente posso me identificar. Ele está tão desesperado para se conectar com alguém que sente que precisa desesperadamente disso de qualquer forma, tanto que está disposto a fazer qualquer coisa para obter essa conexão.

Divulgação/Universal

Por que você acha que as pessoas se identificam tanto com ele?

B.P.: Porque o desejo que ele tem de fazer conexões e os erros que ele comete no caminho são o que o torna tão universalmente compreensível. Todos nós temos aqueles momentos em que fazemos coisas de que nos arrependemos ou que fazemos para nos sentirmos vistos ou ouvidos.

Como Evan evolui e amadurece conforme a história avança?

B.P.: Especialmente na história do filme, acho que Evan realmente cresce, aprende e consegue se redimir. Ele evolui a ponto de, esperançosamente, encontrar um pouco mais de conforto em si mesmo, pois acho que no início da história, ele é um personagem que lida com muito ódio de si mesmo.

E o que você aprendeu interpretando ele?

B.P.: Eu aprendi que, às vezes, se forçar a ter uma conversa difícil, estranha, trôpega e desconfortável – apenas para arrancar o band-aid – é importante e é algo que eu preciso me forçar a fazer, mesmo que eu sendo uma pessoa que evita confrontos. Frequentemente, fico com muito medo de expressar meus sentimentos ou de perguntar aos outros sobre os deles, apenas por causa da estranheza ou da incapacidade de superar esse obstáculo. Então, acredito que a história e a situação do Evan me ensinaram que você apenas tem que se empurrar desse penhasco e começar essas conversas, porque os frutos do que pode acontecer depois que você superar esse desconforto são muito importantes e podem o preencher como um ser humano. Eu também acho que ele me ensinou que a mídia social é uma coisa muito assustadora e que você precisa ser muito cuidadoso com a maneira como a usa, o que tenta extrair dela e quanto vale a pena investi-la.

Como você vê o relacionamento de Evan com sua mãe, Heidi?

B.P.: A relação entre Evan e Heidi sempre foi vista por mim – e eu acho que para os escritores também – como a relação central da história. Existem muitos relacionamentos interessantes e complexos em “Dear Evan Hansen”, mas acredito que o coração do filme e de Evan no final do dia é o relacionamento com sua mãe. É uma bela descrição dessa fase durante a adolescência em que, embora você precise dessa conexão com seus pais mais do que você nunca, também é o momento mais difícil de se expressar e se comunicar com eles. É uma espécie de combinação entre ser alguém que está experimentando tantas dores por estar crescendo e evoluindo e realmente precisar dessa presença dos pais, mas, ao mesmo tempo, sendo incapaz de pedir ou expressar essa necessidade que sente por causa da fase da vida em que está. E, por esse motivo, é uma relação tão comovente para mim e que envolve o público.

Como foi criar essa relação com uma grande atriz como Julianne Moore no filme?

B.P.: Tive uma experiência incrivelmente linda ao fazer isso no palco com a Rachel Bay Jones, que é uma artista extremamente talentosa que acredito ser essencialmente feita de mágia. Trabalhar com uma veterana dos cinemas como a Julianne Moore também foi um grande privilégio. Ela me manteve incrivelmente fundamentado, autêntico, humano e honesto de uma forma que eu acho que só é possível quando você está trabalhando com uma verdadeira e grande atriz como Julianne. Era impossível expressar qualquer inautenticidade ou tornar as coisas exageradas quando se está diante dela, porque ela mantém tudo profundamente verdadeiro. Ela tem uma alegria em trabalhar que aspiro me manter sempre igual, pois acho isso muito inspirador.

Após a morte do Connor Murphy, Evan se torna próximo da família dele, que acredita que eles eram bons amigos. O que a família Murphy representa para o Evan?

B.P.: Acredito que a família Murphy acaba sendo a comunidade e a conexão de que Evan tanto precisa. Ele meio que tropeça nisso e não é necessariamente uma decisão proposital se aproximar deles, mas eles acabam sendo as primeiras pessoas por quem ele se sente visto e ele passa a quer pertencer aquilo, já que eles querem ouvir o que ele tem a dizer e valorizam sua presença. Mesmo que acabe sendo de uma forma tensa, eles abrem as portas para o Evan aceitar ele mesmo e para ele começar a expressar quem ele realmente é fira da sua bolha. Esse é o presente que eles dão a ele e o presente que o Evan dá a eles é essa amizade fabricada com o filho/enteado/irmão falecido.

O que você pode dizer dos atores que formam a família Murphy, a começar por Amy Adams, que dá vida a Cynthia?

B.P.: Os três são extraordinários! Amy Adams é obviamente outra das grandes estrelas que temos. Ela carregou uma dor tão silenciosa ao longo do filme que tornou as teorias de sua personagem após a perda do filho tão reais a cada passo e em cada cena. Ela fez isso de forma sutil, mas sempre demonstrando que a dor e a tristeza estavam presentes, o que torna impossível para Evan confortá-la e parar mentir.

Ben Platt, Dear Evan Hansen
Divulgação/Universal

O Evan tem um relacionamento especial com a irmã de Connor, Zoe, interpretada por Kaitlyn Dever. Como foi a troca de vocês?

B.P.: Kaitlyn foi minha companheira durante a experiência do filme, pois passamos por todo o processo juntos. Sou um grande fã dela desde que vi o trabalho que ela fez com minha querida amiga Beanie Feldstein em “Booksmart”. Assim como Julianne Moore, ela também é muito talentosa em termos de autenticidade. Simplesmente, não há um único movimento falso no corpo de Kaitlyn e há muita verdade nela quando ela age e incorpora sua personagem. Trabalhar com ela foi um verdadeiro presente, pois foi fácil para mim responder a essa autenticidade.

Amandla Stenberg também brilha como Alana, personagem que ajuda Evan a entender que não está sozinho. Você concorda?

Absolutamente! Um dos meus desenvolvimentos favoritos do filme. Ao contrário da produção da Broadway, a maneira como conhecemos Alana no filme tem um nível mais profundo, obtemos uma visão de 360 ​​graus de quem ela é como pessoa e entendemos perfeitamente por que Evan e ela se conectam não só por causa do Projeto Connor. Amandla interpretou a personagem com tantas nuances e complexidade, retratando aquelas pessoas que colocam uma fachada de empreendedora confiante e superdimensionada que todos nós conhecemos, mas que possuem dificuldades em lidar com sua própria depressão e ansiedade. Ela representa uma personagem que não manifesta seus problemas de saúde mental da maneira como vemos com o Evan, que é algo mais óbvio e difundido, mas, assim como milhões de pessoas, ela está lutando contra isso sem falar do assunto abertamente.

Como foi trabalhar com o diretor Stephen Chbosky?

Eu me senti incrivelmente protegido pelo Stephen. Ele sabia como essa performance era profundamente importante para mim e como eu queria desesperadamente fazer justiça a ela. Na prática, ele sempre levou em consideração meus desejos e o que eu precisava para representar o Evan, permitindo que isso fosse uma prioridade mesmo quando não fosse necessariamente o mais conveniente em termos de cronograma de filmagem. Ele sempre vinha até mim e perguntava como eu queria fazer as cenas, considerando o que era necessário emocionalmente para que tudo acontecesse. Não sei se teria conseguido atingir o desempenho que tive sem o apoio dele. Sou muito grato a Stephen por isso.

Depois de sua experiência na Broadway, você gostou de cantar em frente às câmeras?

Foi preciso um ajuste, pois já estou muito acostumado a me apresentar para um teatro cheio de gente. Mas o que é único neste musical é que todo o canto é muito característico e focado na conexão humano-humano. Então, eu acho que foi um desafio divertido manter a musicalidade e a beleza dessas canções, mantendo a performance mais conectiva e menos teatral, pois cantei apenas transmitindo minha emoção ao invés de apresentar um número musical.

Você concorda que “Dear Evan Hansen” lida com a conexão humana de uma forma muito real, honesta e compreensível?

Sim, é um esforço coletivo dos autores. As músicas foram escritas como extensões do roteiro e que tiveram o mesmo vernáculo com a direção fantástica de Stephen. Desta forma, os personagens sempre se sentem muito autênticos e honestos quando começam a cantar. Muito cuidado foi tomado por todos os envolvidos para que essa conexão humana fosse retratada de uma forma natural para que as pessoas realmente se conectarem, sem apelar para algo excessivamente dramático ou irresponsável. Houve um verdadeiro cuidado amoroso e terno na maneira como tentamos discutir a saúde mental e fazer as pessoas se sentirem menos sozinhas e isoladas, sem que isso seja uma experiência muito dolorosa ou pesada.

Essa conexão se tornou ainda mais relevante agora, depois de tudo o que passamos no último ano e meio devido à pandemia de Covid-19?

Com certeza! Quando o musical foi lançado na Broadway, havia uma sinergia em relação a como parecia tão atual e, infelizmente, se tornou ainda mais atual e relevante esse assunto agora, pois está na mente de todos. Se o isolamento e a falta de conexão não eram universais antes, definitivamente são agora! Então, de uma forma comovente, este filme foi lançado na hora perfeita.

 

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William Amorim

Jornalista com trabalho acadêmico de pesquisa sobre a história do Teatro Musical no Brasil, repórter de Entretenimento/Cultura na Jovem Pan, com passagens pelo Portal iG e pela Editora Globo, jurado do Prêmio DID e colunista do A Broadway É Aqui!

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