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“Back To The Future – The Musical” resgata nostalgia de fãs em momento de reabertura teatral

Produtor brasileiro Ricardo Marques assina o espetáculo em Londres e conta detalhes sobre o musical inspirado na trilogia de sucesso nos cinemas

A nostalgia foi um elemento muito presente durante a fase mais severa do isolamento social da pandemia de Covid-19. Quando o presente era incerto ou desagradável, muitos se apegaram às memórias do passado para buscar conforto. A nostalgia tem uma força muito característica de atrair pessoas e, sobretudo, em um contexto de reabertura, parece fazer sentido.

Em um momento em que as pessoas buscam se sentir seguras, não apenas na integridade de sua saúde, mas também sobre as atividades que gostariam de realizar fora de casa, assistir a uma obra com contornos familiares parece uma boa opção. Contudo, como surpreender contando uma história já bastante conhecida do público? Esse é o desafio de “Back To The Future – The Musical“, inspirado na trilogia cinematográfica de “De Volta Para O Futuro”, de Robert Zemeckis e Bob Gale.

Cartaz promocional de “Back To The Future” com o ator Olly Dobson como Marty McFly

Embora tenha sido concebido e estreado antes da pandemia, a obra carrega todos esses tons de emoções em sua homenagem ao filme que marcou uma geração e criou ícones culturais como a DeLorean – máquina do tempo na forma de automóvel responsável por viajar de uma época a outra. E quem conta detalhes desse espetáculo em exclusividade para o B! é o ator e produtor Ricardo Marques, que assina a produção do musical em cartaz em Londres.

CEO da 4Act Entretenimento, Marques foi o nome responsável por trazer ao Brasil musicais como “In The Heights” e “Ghost – The Musical” e foi durante a produção deste último que o executivo teve contato com os futuros produtores de “Back To The Future”. “Cheguei ao espetáculo por convite de Colin Ingram, um produtor super reconhecido em Londres, que assina este novo trabalho e também foi o produtor original de “Ghost” em Londres e Nova York. Ele veio ao Brasil assistir nossa montagem e gostou muito da forma como a gente colocou o espetáculo no palco – que era uma ‘não-réplica’ (quando o musical não precisa seguir à risca cenários, figurinos e outros detalhes da versão original) e toda a criação foi nossa. Ele ficou espantado com a qualidade e grandiosidade do espetáculo, chegando a dizer que foi a melhor montagem ‘não-réplica’ de Ghost. Por isso, ele me convidou para fazer junto com ele a produção de ‘Back To The Future’ em Londres – conta Marques.

Público local lota teatro em Londres após isolamento social

Estreado apenas em 2020, antes do fechamento dos teatros, o musical é um projeto que remete a 2012, quando foi anunciado que o filme poderia ganhar uma versão para o palco. Nos anos seguintes, em 2015, sucessivos workshops foram realizados com o material do espetáculo, por conta da ocasião de aniversário de 30 anos da estreia do clássico, em 1985.

As prévias ocorreram apenas em fevereiro de 2020 no Manchester Opera House, fora do circuito de West End, de Londres. Com a reabertura dos teatros em 2021, o musical voltou em cena já na capital do Reino Unido, no Adelphi Theatre – celebrado palco que já recebeu diversos musicais, como “Evita”, “Kinky Boots” e “Waitress” –  onde realizará temporada até julho de 2022.

Em um contexto de reabertura e ainda com certas restrições, já se pode notar algumas características peculiares neste momento. Embora tenha estreado há pouco mais de 2 meses e apenas há um mês as restrições de viagem da Inglaterra tenham se tornado mais flexíveis, algumas características começam a ser notadas no comportamento da audiência neste contexto pós-pandemia.

Ricardo Marques, CEO e Fundador da 4 Act e produtor no musical “Back To The Future” em Londres

O público de Londres esta reagindo super bem! Embora, historicamente, a plateia aqui seja mais contida, tivemos algumas reações de aplausos e ovações em algumas cenas que demonstra o quanto o espetáculo está agradando as pessoas. Elas saem extasiadas do teatro, ainda custando a crer no que viram em cena. Estamos com uma média de 99% de lotação das sessões e, por enquanto, notamos uma característica muito interessante neste público: na maioria, são pessoas do próprio Reino Unido, público local, ainda com poucos turistas. Acreditamos que com a evolução positiva do cenário da pandemia, muitos turistas devem vir ao Adelphi Theatre assistir a esse espetáculo, o que é um vislumbre muito bom de potencial para o musical, celebra Marques a respeito da aceitação do público.

Respeito à obra original é a chave para o sucesso 

Trabalhar a partir de uma obra consolidada no cinema não é um material fácil. O filme tem muitos fãs e ganhou status entre os amantes da sétima arte. Qualquer ajuste demasiado pode comprometer a dramaturgia esperada  em cena. Estão lá todos os elementos que o público pode reconhecer, como os figurinos, visagismo e claro, a famosa máquina do tempo.

A diferença da versão do cinema para a dos palcos é que o teatro é vivo. A gente consegue criar com muito mais proximidade a relação do público com os personagens. Tivemos algumas adaptações em comparação com o filme, algumas inovações, podemos dizer, mas a base, a essência continua a mesma por que os fãs buscam aquilo que já conhecem e é importante manter.

Para o teatro, trouxemos muitos efeitos especiais, sobretudo para a DeLorean. Tivemos de trabalhar com muitas transições para contar a história da melhor maneira para público e trazer a magia do cinema, dos movimentos do carro, surgindo, aparecendo de forma a surpreender a plateia. Podemos dizer que o carro é o nosso ‘lustre’ como acontece em ‘O Fantasma da Ópera’, explica Ricardo.

Houve, inclusive, respeito com o elenco do filme original. Como Michael J Fox, intérprete original do protagonista Marty McFly (vivido na peça por Olly Dobson) não pode comparecer à estreia do musical, os diretores do espetáculo filmaram uma versão do mesmo e enviaram ao ator para que ele pudesse fazer parte da celebração que foi levar este musical ao palco, sobretudo em um momento de reabertura após quase 18 meses de fechamento dos teatros. Já Christopher Lloyd, intérprete do cientista Dr. (Doc) Emmett Brown nos cinemas, participou do trailer do espetáculo. Na versão teatral, Roger Bart vive o personagem de Lloyd, reproduzindo os maneiros característicos do ator que tornaram o personagem único.

 

Se a nostalgia é a força motriz por trás da dramaturgia do espetáculo, o mesmo poderia se esperar das canções que ajudam a “recontar” essa narrativa. “Temos composições originais para a versão teatral, como inclusão de canções ícones do filme, como ‘The Power of Love’, ‘Back in Time’ e o próprio tema da versão cinematográfica, criado por Alan Silvestri, famoso compositor de trilhas sonoras em Hollywood e que também faz parte do time criativo do musical. Ele foi o responsável por trazer a orquestração original do filme e associar ela às canções originais que embalam o espetáculo, co-criadas com Glen Ballard, outro compositor de peso” explica o produtor em entrevista ao B!.

De fato, a escolha desses dois criativos traz expertise não apenas musical, mas mercadológica ao espetáculo. Glen Ballard foi premiado com Grammy de “melhor canção original” em 2006 por “Believe” para o filme “O Expresso Polar”. Ballard também é conhecido por ter tocado e produzido canções de artistas como Michael Jackson, Alanis Morissete, Shakira entre outras nomes do rock e pop. Já Silvestri fincou seu nome na história do cinema com suas composições para diversos “blockbusters” das décadas de 1890, 1990 e atuais, como o próprio “De Volta Para o Futuro” e suas sequências, “Tomb Raider”, “Lilo e Stich”, “Os Vingadores”, entre outros. Os dois são conhecidos por suas parcerias, reeditadas novamente nesta produção teatral, que terá o álbum com a canções lançados em breve.

Conexão pessoal com o passado e futura montagem no Brasil

Para Ricardo, além da grande oportunidade de assinar uma obra de peso cultural, há uma conexão com a obra. “Minha memoria afetiva do filme é muito grande, é um dos meus favoritos há muito tempo. Ter a chance de estar envolvido num projeto nostálgico como esse é ao mesmo tempo pra mim é muito legal e gratificante. Eu fui um dos primeiros a estar ao lado do Colin, criando o roteiro, selecionando as equipes, os efeitos especiais. Transformar esse filme em um musical, algo que eu amo fazer, está sendo para mim uma experiência única” relata o produtor.

Quanto ao futuro do espetáculo, Ricardo adianta que Alemanha e Coreia do Sul estão no roteiro de possibilidades internacionais do espetáculo, junto à Nova York, na Broadway. O Brasil também não deve ficar de fora dessas conversas e o produtor já está estudando junto aos executivos estrangeiros Londres a possibilidade de trazer o espetáculo ao país, o que pode acontecer depois da chegada do musical à Broadway. “Sabemos que no Brasil há uma burocracia grande para colocar o espetáculo em cartaz, mas a ideia é ter uma montagem nacional nos próximos anos.” finaliza o executivo.

 

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Cláudio Martins

Jornalista formado pela FACHA (RJ) e fundador do A Broadway é Aqui!

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