“Teatro é o substantivo, musical é o adjetivo”: os bastidores da criação de “O Fantasma de Friedrich”
Cia. Bife Seco revela como dramaturgia, composição musical e criação coletiva deram origem ao novo musical autoral que estreia em São Paulo.

Depois de conquistar público e crítica na mostra principal do Festival de Curitiba em 2024, “O Fantasma de Friedrich – Uma Pop Ópera Punk” chega pela primeira vez a São Paulo com uma versão renovada da montagem. Criado pela curitibana Cia. Bife Seco, o espetáculo cumpre temporada de 3 a 13 de setembro no Teatro João Caetano e de 17 de setembro a 3 de outubro no Teatro Arthur Azevedo, em São Paulo. Apresentado pelo Ministério da Cultura e Petrobras, o musical reúne 15 artistas em cena e combina humor ácido, fantasia, a filosofia de Friedrich Nietzsche, punk rock e teatro musical para abordar, de forma sensível e original, temas como saúde mental, solidão, amadurecimento e a busca por sentido. Mas, para além da história que chega ao palco, a montagem também chama atenção pelo processo de criação desenvolvido pela companhia, que há 15 anos pesquisa novas possibilidades para o teatro musical autoral brasileiro.
Para o diretor, dramaturgo e idealizador Dimis, a filosofia da companhia pode ser resumida em uma frase que orienta todo o trabalho desenvolvido ao lado do compositor Enzo Veiga.
“Como o Enzo e eu sempre repetimos, teatro é o substantivo, musical é o adjetivo. A história é a base e o mais importante dentro das nossas obras.”
Parceiros criativos há 13 anos, Dimis e Enzo desenvolveram um método em que dramaturgia e música evoluem simultaneamente. Em alguns momentos, uma cena inspira uma canção. Em outros, é uma composição musical que altera o caminho da narrativa. Não existe uma fórmula rígida. O objetivo permanece sempre o mesmo: construir a melhor história possível e garantir que cada número musical tenha função dramatúrgica dentro do espetáculo.
Segundo o diretor, texto e música se alimentam mutuamente durante todo o processo criativo, permitindo que as canções avancem a narrativa em vez de interrompê-la. A trilha também foi construída a partir de temas e leitmotivs que acompanham o desenvolvimento emocional dos personagens, ampliando a força dramática da encenação.
“Música e texto caminham lado a lado nesse processo de criação. Uma coisa vai alimentando a outra constantemente, mas sempre guiados pela melhor história possível. Queremos que as canções tenham, antes de tudo, a função de avançar a narrativa.”
Esse espírito colaborativo também se estendeu aos ensaios. Embora existisse uma concepção dramatúrgica definida, atores participaram da construção de seus personagens, a banda colaborou com os arranjos e todas as áreas criativas dialogaram desde o início do processo. O objetivo era manter a essência do teatro de grupo mesmo em uma produção de grande porte, permitindo que diferentes olhares contribuíssem para a evolução da obra.
A criação também não terminou com a estreia. Antes de chegar ao Festival de Curitiba, o espetáculo passou por ensaios abertos e apresentações-teste. Depois do primeiro contato com o público, novas revisões de dramaturgia, ajustes de ritmo e atualizações em cenários, figurinos e iluminação seguiram sendo incorporados à montagem, que chega a São Paulo em sua versão mais madura.
“A estreia não é o fim do processo criativo, é o começo dele. O teatro está vivo todas as noites no encontro com o público. São Paulo vai receber a melhor versão de ‘O Fantasma de Friedrich’ que já tivemos. O que mudou foi a precisão com que contamos essa história.”
Resultado de uma pesquisa desenvolvida pela Cia. Bife Seco ao longo de 15 anos sobre teatro musical autoral brasileiro, “O Fantasma de Friedrich – Uma Pop Ópera Punk” representa a consolidação de uma linguagem própria da companhia, construída a partir de dramaturgias inéditas, personagens originais e processos criativos colaborativos. Mais do que apresentar um novo espetáculo, a montagem reafirma a aposta da Bife Seco em um teatro musical que coloca a história no centro da criação e busca novas possibilidades para o gênero no Brasil.



