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Gilberto Gil atravessa o tempo em primeira biografia musical

Com Gui Ventura no papel do artista, “Gil – Andar com Fé” estreia em 20 de agosto, com direção de Miguel Falabella.

Poucos artistas brasileiros atravessaram tantas transformações do país sem deixar de dialogar com o presente quanto Gilberto Gil. Compositor, cantor, instrumentista e um dos principais nomes da música brasileira, ele construiu uma trajetória que passa pela Tropicália, pela prisão e pelo exílio durante a ditadura militar, pelo retorno ao Brasil e por uma obra que continua encontrando novas gerações. É essa multiplicidade que chega agora aos palcos em “Gil – Andar com Fé”, primeira biografia musical dedicada à vida e à obra do artista, que estreia nesta quinta-feira, 20 de agosto, no Teatro Santander, em São Paulo, como parte das comemorações pelos dez anos da casa.

Dirigido por Miguel Falabella, com texto de Newton Moreno, o espetáculo escolhe não organizar essa história a partir de uma sucessão convencional de datas. A dramaturgia se inspira na concepção iorubá do tempo, na qual passado, presente e futuro se entrelaçam, permitindo que diferentes momentos da trajetória de Gil coexistam em cena. Da infância em Ituaçu à formação musical, da efervescência tropicalista ao período de prisão e ao exílio em Londres, até o retorno ao país e a consolidação de uma carreira que atravessa décadas, as memórias surgem como partes de um mesmo fluxo.

No centro dessa travessia está Gui Ventura, ator, cantor, músico e compositor mineiro escolhido para interpretar Gilberto Gil. Natural de Santa Luzia, Ventura estudou violão na Universidade de Música Popular Bituca e teatro no Teatro Universitário da UFMG, além de desenvolver trabalhos no palco, no audiovisual e na música autoral. Antes da estreia, foi apresentado ao próprio Gil por Falabella durante um encontro no Rio de Janeiro, quando teve a oportunidade de cantar ao lado do artista que agora leva aos palcos.

A narrativa ganha ainda uma figura que ajuda a traduzir teatralmente a relação de Gil com suas próprias memórias. Guga Barbosa interpreta Tempo-Rei, entidade mítica que conduz o protagonista através de sua história e também assume personagens como Luiz Gonzaga e João Gilberto. Ao lado deles, Henrique Zamith vive Caetano Veloso, parceiro fundamental de Gil na criação tropicalista e nos anos de exílio, enquanto Bel Lima interpreta Flora Gil, presença associada a uma fase mais serena da vida do cantor.

Com 34 artistas, o elenco alterna veteranos do teatro musical e novos nomes para dar vida às muitas pessoas que atravessaram a trajetória pessoal e artística de Gil. Entre elas estão Belina de Aguiar, Nana Caymmi, Sandra Gadelha, a Drão, Dedé Gadelha e Preta Gil, além da avó Lydia, do pai José, da mãe Claudina e da irmã Gildina. A montagem também coloca em cena nomes fundamentais da cultura brasileira, como Gal Costa, Maria Bethânia, Elis Regina, Luiz Gonzaga, João Gilberto, Chico Buarque, Rita Lee e Os Mutantes, além dos comunicadores Chacrinha e Flávio Cavalcanti.

Naturalmente, é pela música que boa parte dessa história encontra sua linguagem. Em vez de funcionar apenas como repertório de sucessos, as canções são utilizadas como fio dramatúrgico de uma narrativa que percorre diferentes sonoridades da obra de Gil, da bossa nova ao samba, do baião ao afoxé, da guitarra elétrica ao tambor ancestral. Estão no espetáculo músicas como “Eu Vim da Bahia”, “Andar com Fé”, “Aquele Abraço”, “Domingo no Parque”, “London, London”, “Tempo-Rei”, “Se Eu Quiser Falar com Deus”, “Drão”, “Vamos Fugir”, “Back in Bahia”, “Palco”, “Realce” e “Toda Menina Baiana”, entre outras.

Essa escolha faz com que “Gil – Andar com Fé” se afaste da lógica de simplesmente ilustrar acontecimentos conhecidos por meio de músicas igualmente conhecidas. Ao cruzar épocas, personagens e referências culturais, a montagem procura encontrar uma forma teatral para uma trajetória marcada justamente pelo movimento. Gil aparece não apenas como personagem de uma biografia, mas como parte de uma história maior da cultura brasileira, construída por encontros, rupturas, afetos, experimentações e transformações.

A equipe criativa reúne Bárbara Guerra na direção associada, Thiago Gimenes na direção musical, Leilane Teles e Tiago Dias nas coreografias, Natália Lana na cenografia, Tocko Michellazo no design de som, Wagner Pinto na iluminação, Marco Pacheco e Jemima Tuany nos figurinos, Dicko Lorenzo no visagismo e Giselle Lima na produção de elenco. Os arranjos musicais e orquestrações são assinados por Thiago Gimenes, Tiago Saul e Ivan de Andrade. Já Gabriel Wickbold responde pela identidade visual do espetáculo, inspirada em seu projeto autoral I am light, que também serve de referência para um dos cenários da montagem.

Transformar Gilberto Gil em personagem enquanto sua obra segue viva e em constante circulação talvez seja justamente o maior desafio de uma montagem como esta. Ao abandonar uma cronologia rígida e permitir que diferentes Gils se encontrem em cena, o musical parece partir de uma ideia simples e coerente com o próprio artista: algumas trajetórias não pertencem apenas ao passado. Continuam se transformando à medida que o tempo passa.

SERVIÇO:

Onde: Teatro Santander
Av. Presidente Juscelino Kubitschek, 2041, Complexo JK Iguatemi, São Paulo
Quando: 20 de agosto de 2026
Sessões: quintas e sextas, às 20h; sábados, às 16h e 20h; domingos, às 15h e 19h
Duração: 2h20, mais 15 minutos de intervalo
Classificação: 12 anos. Menores acompanhados dos pais ou responsáveis legais
Quanto: de R$ 25 a R$ 400, considerando meia-entrada e inteira
Vendas: Sympla
Acessibilidade: todas as sessões possuem audiodescrição e Libras.

 

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