Especial DuB!agem: Gottsha

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Por Gottsha

“Eu amo dublar, amo! Mas na verdade eu não fiz muitas dublagens, não tantas quanto eu gostaria. Comecei há muitos anos, acho que em 2002, quando fiz meu primeiro grande trabalho, era na verdade uma música de um final de desenho (chamada de end credits, quando sobe os créditos) que era a “A Bela e Fera de Natal”, em que eu tive a honra de dublar a Roberta Flack, que inclusive eu sou fã, uma cantora americana da década de 1970 que gravou muitas coisas dançantes bem bacanas e nesse trabalho ela fez um dueto com Peabo Bryant. Eu fiz essa dublagem nesses primórdios que na verdade não tinha essa questão da embocadura. 

Depois disso, eu fiz algumas dublagens de filmes como atriz e cantora até que surgiu a oportunidade de fazer um teste, que é uma história ótima, para a animação “Monstros S.A”, no papel da Roz. Quando eu cheguei o diretor do desenho falou: ‘-Gottsha eu tô te chamando porque a gente já fez o teste com todos os homens aqui – originalmente esse personagem foi feito por um homem nos EUA -, e o pessoal da Disney achou muito caricato. Então resolvi chamar você porque, tem uma voz grave, tem uma coisa divertida e eu acho que a gente pode colocar você num teste com outros homens e a gente vê o que acontece’. E aí foi uma história engraçadíssima, porque eu fiz o teste com outros dubladores, todos do sexo masculino, eu era a única mulher, só que ninguém sabia. Os áudios foram enviados para os Estados Unidos e chegando na Disney o desenhista do Monstros S.A., que fez a voz da Roz, falou: ‘-eu quero esse cara aqui’, e apontou para uma gravação que era minha. ‘Esse cara sou eu’, literalmente (risos).

E aí chegou uma resposta para mim, ‘Gottsha você passou, você desbancou todos os dubladores homens, super feras que a gente tinha aqui para fazer a Roz’. Eu tive inclusive que fazer um vídeo dizendo que eu era a Gottsha, que tinha feito a voz. Não tinha música nesse desenho, mas esse foi um personagem que ficou marcado porque tinha uma voz muito rouca, e ela era na verdade a chefona do desenho. Foi muito bacana ter tido essa experiência.

Logo depois eu fui convidada para fazer o teste do ‘Enrolados’. Me chamaram para ele e eu fui meio descrente porque eu pensei: ‘-poxa uma vilã, eu adoraria fazer uma vilã, mas tem tanta mulher aqui que dubla bem, canta bem’, e aí eu fui sem expectativa nenhuma realmente, fiz e fui embora. Demorou umas três, quatro semanas para voltar uma resposta, nesse tempo eu fingi que não tinha feito o teste, por que eu sou muito ansiosa por natureza, e aí de repente falaram ‘-Gottsha, esse papel ficou entre você a Izabela Bicalho’, e aí eu pensei logo que a Izabela ia ganhar porque tinha mais tarimba na dublagem, eu fazia coisa muito pequena. E aí em seguida veio a resposta: ‘- o pessoal da Disney achou que você foi melhor nesse teste, você  realmente parece com a gringa, tua voz lembra a dela, vamos começar a gravar e você vai fazer como atriz e cantora’.

E aí foi um presente na minha vida. Porque eu realmente nunca tinha feito um desenho inteiro da Disney, e muito menos nessa questão enorme que foi o ‘Enrolados’, que tinha o Luciano Huck dublando, um nome famoso, de uma celebridade. E aí eu falei, ‘-cara eu vou ter que fazer muito bem, porque quando eu escutei o original, ela era fera!’. O desenho não era fácil, eu ainda propus algumas coisas que foram superlegais, e o diretor, Garcia Junior, que me dirigiu lindamente, super topou umas propostas minhas, de quando a personagem estava mais velha, eu fazer a voz mais velha também, e quando ela começava a ganhar a juventude por causa do cabelo da Rapunzel, eu mudar a voz para jovem. Ele adorou essa proposta!

Lidar com crianças foi outro presente desse trabalho, ver elas descobrirem que eu sou a voz da Mãe Gothel é incrível, lembro que meus sobrinhos ficaram alucinados quando foram assistir, eles diziam ‘-olha lá, minha dindinha está no cinema!’, e não sou eu né, na verdade é a voz, mas essa questão vocal é incrível mesmo, impressionante como você fica taxado assim, tem gente que me conhece só pela voz! E a propósito, eu acho incrível quem tem esse ouvido, que diz ‘-eu te reconheci pela voz hein!?’. É muito bacana isso, super prazeroso, porque é diferente de você estar em cena, a pessoa estar te vendo e ouvindo. Ali ela só está te escutando, vendo um outro personagem com um físico que muitas vezes não é nada parecido com o seu. Mas as vezes também tem semelhança, eu mesma já vi dubladores que eu achava que a voz parecia com a pessoa, o que é muito engraçado, porque vira uma coincidência incrível. 

Ai eu tive esse prazer, essa honra de fazer essa vilã, e de vez em quando eu assisto o desenho, acho que a cada três, quatro meses eu coloco para ver e acho que foi um trabalho maravilhoso, fico muito orgulhosa de mim, porque não tenho essa habilidade na dublagem que muitos colegas de trabalho tem.

E o filme que pintou depois foi o ‘Frozen’, que foi praticamente uma desistência, eu não sei o que aconteceu, mas foi muito em cima da hora! Me ligaram do estúdio para eu ir praticamente no mesmo dia, foi tipo: ‘-Gottsha eu lembrei de você, porque a senhora que vinha fazer teve um problema, ela não poderá dublar e eu queria saber se você pode vir” e por um acaso naquele dia eu estava disponível, fui com o maior prazer e foi muito legal. Eu gravei a música chamada ‘Reparos’, de quando a Troll dá o conselho amoroso para a Anna, e foi algo que eu não tive preparo, como no ‘Enrolados’, tudo no ‘Frozen’ foi na hora, fui, ouvi a música e naquele momento eu já gravei – foi do jeito que tinha que ser e do jeito que fui dirigida pelo Félix, que era o diretor musical, e mesmo sendo pega de surpresa foi bacana, porque depois que a gente vê o resultado no cinema, se escuta, a sensação é maravilhosa. 

A dublagem em si é muito difícil, são várias coisas ao mesmo tempo, é o texto em inglês no ouvido direito enquanto o ouvido esquerdo está destampado para você ouvir o que você está falando, para ouvir o diretor, para você ver a boquinha do personagem e sincronizar com ele. é uma loucura. Eu bato palmas para todos os dubladores, acho que a matéria do B! é louvável, porque às vezes essas pessoas ficam escondidas. É engraçado você ver um personagem que nada tem a ver o dublador, eu tenho vários amigos que dublam e eu sei disso por causa dessa questão na minha carreira, mas eu ainda tenho curiosidade de conhecer alguns. Eu espero que em breve tenha mais personagens para fazer, porque é muito prazeroso o processo, essa coisa, principalmente do desenho, que mexe muito com a criança, até mesmo com a criança dentro da gente, é maravilhoso”.

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