[Entrevista] Bruce Gomlevsky apresenta Renato Russo para nova geração

 

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FOTO: Dalton Valério

Para algumas pessoas, levar ao palco a vida e obra de seu ídolo pode ser mais do que uma simples homenagem; É reviver memórias afetivas e criar um estilo próprio de atuação. Este é o caso de Bruce Gomlevsky, idealizador e protagonista do premiado espetáculo “Renato Russo – O Musical”, em cartaz no Theatro Net Rio. Em cena, o ator incorpora o vocalista da icônica banda Legião Urbana, e celebra o retorno do espetáculo ao circuito teatral do Rio de Janeiro em um momento especial. “Quando estreei a peça em 2006 já idealizei pensando nos 10 anos de morte do Renato. E ai eu fiz a peça por quase cinco anos… Passaram 20 anos e eu pensei, ‘estou com saudade’. São 10 anos de estreia da peça, 20 anos de morte do Renato“, conta Bruce em entrevista ao B!.

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Capa de “Renato Russo – O trovador solitário”

O musical, que ficou cinco anos em cartaz (2006 a 2011) consagrou Mauro Mendonça Filho com o prêmio Shell de Melhor Diretor em 2006, é inspirado na biografia escrita pelo jornalista Arthur Dapieve, intitulada “Renato Russo – O Trovador Solitário”, lida por Bruce, que se interessou em adaptar a obra para o teatro, em um formato musical. Porém, a equipe criativa do espetáculo precisou lidar com um grande desafio: selecionar as músicas propícias para o espetáculo, dentro do vasto repertório de Renato.

Quando a crítica Bárbara Heliodora viu a peça, ela escreveu uma coisa muito interessante: era um dos poucos musicais que ela tinha visto onde as músicas ajudam a contar a história, são parte da dramaturgia. As letras do Renato são peças fundamentais do enredo. Não só texto e número musical. Foi muito difícil montar esse repertório. Precisávamos de músicas que contassem a histórias, que fossem importante para a plateia, mas teve músicas que eu amava e ficaram de fora da seleção”, relembra Bruce.

Momento de agitação política ontem e hoje

foto-guga-melgar-235A trajetória de Renato Russo é marcada pelas suas fortes convicções politicas, presentes também em sua obra. O artista encarou o preconceito por assumir publicamente ser homossexual e, mais tarde, o fator de ser portador do vírus HIV, que levou a sua morte precoce aos 36 anos, por conta de complicações do relacionadas à Aids. Mesmo após o seu falecimento e o encerramento momentâneo das atividades do Legião Urbana, as canções da banda como “Será”, e “Geração Coca-Cola” são ainda hoje lemas de muitos inconformados com a atual ordem social vigente, como foi no surgimento e auge da banda, nos anos 80 e início da década seguinte.

Curiosamente, após 20 anos do falecimento do compositor, o país vive novamente um cenário de instabilidade política e econômica, semelhante ao pano de fundo histórico que inspirou parte das composições de Renato. “Quando estava relendo o texto me deparei com uma cena que retrata um show em Brasília e percebi como ele é atual. Em uma das falas, o personagem critica com o seguinte protesto: ‘quem colocou aquele presidente lá’?”, em referência a Fernando Collor de Mello, governante que passou por um processo de impeachment e renunciou a presidência em 1992.

Apesar do distanciamento histórico, ainda hoje a obra do cantor conquista ouvintes, de todas as idades, não apenas pela relevância política, mas também pela poesia. “Isso se deve a qualidade poética do trabalho dele. Renato é sobre tudo um grande poeta e cantava em primeira pessoa. Então, a obra dele se perpetua, de geração a geração, de pai pra filho. Qualquer jovem, em qualquer lugar do Brasil, vai se identificar com as questões que ele propõe. Estou muito feliz de poder levar a peça para esta nova geração. Isso é o mais bacana, apresentar o Legião para pessoas que não tiveram a oportunidade de conhecê-lo em seu age, como eu” explica o ator.

Desafios 

“Renato Russo – O Musical” pode ser considerado um dos precursores dos chamados “musicais biográficos” do início do século XXI no Brasil. Hoje, não faltam exemplos e números que comprovam o sucesso do formato no país, principalmente nos últimos quatro anos. Mas, ainda assim, mesmo com uma figura já conhecida do grande público, não é fácil levar uma peça nestes moldes ao palco.

Neste espetáculo, especificamente, mesmo com muitos casos semelhantes bem sucedidos e o grande apelo da figura do homenageado, a produção não conseguiu captar patrocínio, mas isso não foi um empecilho para Bruce, que contou com a ajuda da produtora Bianca De Felippes para ir adiante com o projeto. Sem patrocínio, a peça segue apenas arrecadando receita com o dinheiro obtido pela venda de ingressos. “Refizemos o cenário inteiro, temos mais de 20 pessoas trabalhando, isso apenas com o dinheiro da bilheteria para manter. Estamos fazendo na cara e na coragem, provando que é possível fazer arte no Brasil sem ficar refém do patrocínio“.

A celebração da obra de Renato não se encerrará com o fim da temporada do musical. Bruce já tem outro projeto sobre a carreira do cantor: um monólogo musical inspirado no livro “Só Por Hoje e Para Sempre”, obra póstuma de Renato publicada a partir do diário do cantor, que foi escrito enquanto esteve internado em uma clínica de reabilitação para tratar o vício em drogas e álcool.

 

 

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