Entrevista: Márcio Simões, a voz por trás do Gênio da Lâmpada, de “Aladdin”, há 27 anos

Assistir a um filme dublado sempre divide opiniões. Há quem prefira as vozes originais, mas há também quem tenha se acostumado com uma referência antiga e não consiga se desconectar da famosa “memória auditiva” e muitas vezes, emotiva. Normalmente é o que acontece com profissionais como Márcio Simões, considerado um dos maiores nomes da dublagem no Brasil há mais de 30 anos, e que contou com exclusividade ao B! sobre essa trajetória de sucesso e seu retorno ao longa do momento, o live-action “Aladdin”, recorde de bilheteria nos cinemas desde seu lançamento, em 23 de maio.

O carioca responsável por dar voz a dezenas de personagens interpretados por grandes nomes de Hollywood, além das famosas animações, carrega consigo muitos marcos desde 1986, quando, apesar de formado em Engenharia Civil na UFRJ, decidiu apostar em algo com que se identificava desde pequeno. “Quando eu era criança adorava imitar desenho animado, fazer as vozes dos personagens da minha época, e sempre pensei assim: ‘- caramba, bem que eu poderia ser tradutor!’ – naquele tempo eu não tinha ideia do que era ser dublador. Ai o tempo passou, eu me formei, não exerci, e logo entendi que não tinha nada a ver com a Engenharia. Eu fui trabalhar em rádio, trabalhei na Globo FM, na Estácio, e na época em que estava na Estácio pintou o curso do Newton da Matta, lá na faculdade mesmo, e me interessei. Como eu já trabalhava na rádio, fiz curso e enfim, estou aí até hoje”, conta.

Mas se engana quem pensa que ele conquistou grandes papéis rapidamente, pois os testes sempre fizeram parte da trajetória de Márcio – que precisou de alguns anos para conquistar seu espaço entre os principais produtores da época, além do respeito de colegas de profissão. Uma escada de aprendizado foi subida degrau por degrau através de diversos trabalhos menores, de pouca fala e muito vozerio – termo que se usa para cenas em que o encontro de várias vozes acontece, encorpando um ambiente publico. “No início foi difícil, porque eu tinha que provar para os diretores que eu era bom, mostrar o meu trabalho, e isso naquela época levava um bom tempo, levava anos, a gente não tinha essa oportunidade assim tão rápido, as coisas não aconteciam como hoje em dia, então a gente passava um tempo até as pessoas conhecerem e gostarem da gente. Só depois desse processo que era escalado para coisas melhores”, relembra.

No meio dessas “coisas melhores” surgiu um convite que se tornaria o divisor de águas na carreira de Márcio Simões, fincando sua bandeira na história da dublagem. O desafio era dar vida ao Gênio da Lâmpada, da animação de “Aladdin”, um dos maiores clássicos da Disney lançado em 1992. A voz original foi dada por Robin Williams, que também se consagrou no papel, mas antes de viver essa responsabilidade tamanha, ele quase deu vida ao mais famoso caranguejo de Walt Disney.
“Eu fui chamado para fazer o teste para o Sebastião, de ‘A Pequena Sereia’ (1989), mesmo sem os diretores me conhecerem tanto. Eu já tinha feito algumas coisas legais, mas aquela confiança necessária da época ainda não tinha. Acabou que não consegui chegar no teste na hora e fui substituído, fiquei chateado pra caramba, mas ele acabou sendo dublado pelo André Filho, que fez maravilhosamente bem. O tempo passou e o desenho seguinte que veio foi o ‘Aladdin’, então o diretor que tinha me escalado naquela época acabou me chamando de novo. Eu fiz o teste com mais três pessoas e ganhei. O Telmo, que foi o diretor, ainda não era muito seguro quanto ao meu trabalho, mas ele foi vendo a coisa acontecer, a gente se adaptando ao que precisava na hora, e fui começando a ganhar mais confiança. Só depois que fiz o trabalho do ‘Aladdin’ que passei a ser reconhecido pelos colegas como um bom dublador e os diretores começaram a me dar mais oportunidades, as portas foram se abrindo”, explica ele, lembrando ainda que, antigamente, o processo para ocupar um lugar nesse mercado vinha muito do boca a boca, da indicação entre os criativos do meio.

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Agora, quase três décadas depois, a voz que eternizou o grande amigo azul de Aladdin está de volta na versão live-action, que conta ainda com Daniel Garcia, Lara Suleiman e Rodrigo Miallaret no time de dubladores, e diferente do que muitos pensam, ele não foi diretamente escolhido para reviver o personagem, mesmo sendo considerado o dublador oficial de Will Smith no Brasil: “Nesses 27 anos eu também dublei o Robin Williams em vários filmes depois do Gênio, mas tive que gravar um teste de canção e cena, que foi enviado para a Disney para eles aprovarem lá. E mesmo depois de aprovado, se não tivesse ficado bom, eles pediriam para refazer, então não tem muito essa coisa de ‘-ah, mas tem que ser o Marcio Simões!’. Infelizmente hoje em dia isso não conta mais, é uma pressão legal, mas é o cliente que decide. Se eles tivessem optado por colocar um cantor, ou um ator-cantor de musical, que é o que tem acontecido ultimamente, seria assim e pronto, mas eu dei sorte. Fiz o teste, eles gostaram e foi, de novo, um bom trabalho”, comemora.

O longa musical que superou a bilheteria de “Vingadores” no país ganhou contornos mais modernos com o trio protagonista vivido por Mena Massoud, Naomi Scott e Will Smith, e por mais referências que Márcio pudesse ter sobre o papel, ele precisou ser tateado do zero, e as diferenças encontradas foram trabalhadas na adaptação através de orientações do estúdio e muito feeling. “Na verdade a orientação que eu tive da Disney para esse filme foi: ‘- esquece o Robin Williams, esquece que ele fez. Se concentra no que o Will Smith fez e faz exatamente igual’. E ai eu, junto com o diretor de dublagem e o diretor de canção, decidimos fazer frase por frase, com calma, para poder pegar tudo que ele fez e repetir, fazer igualzinho a ele, do jeitinho que ele fez, porque ele criou esse novo personagem né?! Ele fez uma homenagem ao Robin Williams, mas sem deixar de imprimir a característica dele, então tive que fazer exatamente assim, e por exemplo, aquelas imitações que o Robin fez, o Will não fez, ele se concentrou em dar aquela cara para o personagem, fazer uma coisa mais rapper, mais hip hop, daquele jeitão dele mesmo, e foi nisso que me concentrei também”.

Não é difícil encontrar quem diga que a famosa “magia Disney” impacta positivamente a vida de quem tem a oportunidade de trabalhar com ela. A possibilidade de “se tornar um personagem” é sonhada por muitos artistas, especialmente os dubladores, e Márcio ainda foi mais longe, dando voz a outros três conhecidos vilões,  Hopper de “Vida de Inseto”, Hades de “Hércules” e Randall Boggs de “Monstros S.A”, ao peixe Gill de “Procurando Nemo” e ao amigo de Lilo, Stitch, mas o seu carinho especial pelo Gênio é mesmo inegável, bem como o cuidado que tem com este trabalho, em suas duas vivências. “É claro que isso (de se tornar um personagem), para qualquer profissional da nossa área, é sensacional. Poder ter a chance de fazer um trabalho legal para a Disney, passar no cinema, na televisão, isso é claro que tem uma força danada na nossa carreira, projeta a gente bastante. Eu faço qualquer trabalho com muito cuidado, mas um trabalho para cinema, um trabalho de animação, voltado para as crianças, a gente tem um cuidado maior ainda, porque tem que pensar nas labiais, tem que ser engraçado, ser cativante, então isso é um negócio que, pra gente é um presente, poder fazer de novo esse trabalho como eu fiz, é um presente, de verdade!”.

Presença marcante na trilha sonora da história, Márcio solta a voz com segurança nas clássicas canções “A Noite Da Arábia”, “Nunca Teve Um Amigo Assim” e “Príncipe Ali”, e tudo porque além do trabalho como ator e dublador, ele é também músico e se aventura como cantor, tendo inclusive integrado uma banda e gravado um disco pela Som Livre, mas nada em que, nesses anos todos, tenha se empenhado profissionalmente. Outra curiosidade é o fato dele nunca ter participado de nenhuma produção teatral musical, embora apresente todos os pré-requisitos para isso, mas eis aí uma ideia que ele também não descarta. “Eu me divirto tocando violão, guitarra e cantando. Nos trabalhos que faço, aí sim, eu tento caprichar, mas não sou um cantor de teatro musical, eu sou um ator, um dublador que também canta. E eu até gosto de musicais, mas não acompanho de perto, nunca pensei em fazer um… Mas quem sabe, se algum dia tiver uma proposta, pode ser que eu me interesse, eu vou sim”, finaliza.

E o ator, cantor, dublador e músico, dividido em outras mil facetas de tantos personagens, tem um recado especial pra você, que sonha em entrar para o mágico mundo da dublagem, aperte o play e confira!

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