Conheça o processo criativo do musical “Elza”

Sete é um número dotado de uma aura mística. Sete são as cores do arco-íris. Sete são os dias da semana. Sete é o número de atrizes do musical “Elza“: Julia Dias, Larissa Luz, Laís Lacôrte, Késia Estácio, Janamo, Khrystal e Verônica Bonfim. Sete é o número de Ogum, orixá equivalente a São Jorge (no sincretismo religioso), do qual Elza Soares é devota. O número surge de forma sutil no musical que conta a trajetória da cantora e é evocado na letra da canção “Ondas de Jorge“, composta especialmente por Pedro Luís para o musical. O cantor também assina direção musical do espetáculo e a composição de “Deus há de ser”, faixa presente no recente álbum de Elza – “Deus é Mulher”.

A pedido da cantora, três figuras masculinas são retratadas com ênfase no espetáculo: o primeiro marido de Elza, Alaúrdes Antônio Soares, o jogador Mané Garrincha e São Jorge. Mas longe de tratar sobre os homens na vida de Elza, o musical fala sobre seu protagonismo como mulher, negra e artista. Isso é traduzido no palco (e fora dele) em vários aspectos. Seja pela direção de Duda Maia, seja pela presença de uma banda formada completamente por mulheres ou por uma equipe criativa preocupada em dar voz ao feminino.

“Nós fizemos muita questão de ter essa banda feminina, com suas ideias de composição, de arranjo, de onde cada uma pode entrar. Eu acho que tem várias importâncias nessa forma de trabalho. A escolha de falar, hoje, sobre Elza, é, em primeiro lugar, uma grande homenagem à mulher, à mulher negra e a tudo o que as mulheres estão vivendo hoje. Estamos em um momento social muito movimentado, com a voz feminina se afirmando. E a Elza tem esse eco político muito forte. Daí a importância de ter dentro do espetáculo essas opiniões e vozes femininas. Por isso, a escolha de uma peça integralmente apresentada por mulheres – são sete ‘Elzas’ e sete mulheres na banda” explica Duda Maia, diretora do musical em entrevista ao B!

O repertório do musical passeia por várias obras que ganharam destaque na interpretação de Elza, desde o início até seus trabalhos mais recentes, como seu último álbum lançado neste ano.

“Se você analisar a carreira da Elza, quando ela estourou e agora, percebe o quanto ela é moderna e atual. Uma das falas dela que resume esse modo de encarar a vida é “my name is now” (“meu nome é agora”) mencionada na peça. Ela te dá essa sensação de que está só começando. É muito legal ver uma pessoa com mais idade, muita história e sucesso, lançando um novo trabalho (no caso, ‘Deus é Mulher’ o 33º álbum da cantora). É uma esperança, uma injeção de ânimo e uma alegria poder fazer uma homenagem para uma pessoa que está viva e que ainda tem tanto a dizer. Por outro lado é um grande responsabilidade” conta Duda.

Um dos cuidados que mais recebeu atenção da equipe criativa, foi não focar somente nos aspectos negativos da vida de Elza Soares, como a violência doméstica e o preconceito, mas colocá-la como protagonista de sua própria vida.

Quando a gente conversou com a Elza sobre o projeto, ela tinha muito receio que o espetáculo se tornasse uma leitura de suas tragédias pessoais. Ela é uma pessoa extremamente bem humorada, divertida, com uma fome de viver e um amor pela música muito grande! Claro, a gente conta fatos que aconteceram na vida dela sem um forte compromisso com a cronologia. O Vinicius Calderoni (autor do texto) foi muito inteligente em permear a vida de Elza com a trajetória das meninas do elenco, com história de outras mulheres, sem se importar com a ordem temporal, buscando um fato que acontece aqui, agora, e lá na frente volta de outro jeito. Houve uma liberdade poética muito grande, porque nós desejávamos prestar uma grande homenagem à ela. 

A gente se importou, mesmo nos lugares tristes, nas dificuldades, de não colocar ela como vítima da história, porque ela nunca se considerou dessa forma. Ela é descrita como a mulher que revida, que renasce, se transforma com a arte e a música, ‘Sempre dei minha opinião’ – contava ela – e às vezes até sofria mais por causa disso, mas nunca se escondeu ou colocou as coisas embaixo do tapete.

A colaboração foi algo presente em todo o processo de criação do espetáculo. Havia todo um cuidado da produção em compreender o lugar de cada integrante e o que elas poderiam trazer de sua própria vivência para o espetáculo.

“A gente fez uma audição muito amorosa, com aulas, levando em conta o coletivo. Desde o início, trabalhamos nesse lugar do afeto, da aproximação. Fizemos a audição logo após o assassinato da vereadora Marielle Franco. O projeto já começou muito remexido, todas as meninas que passaram pela audição estava muito sensibilizadas e ao mesmo tempo com muita vontade de falar, de se colocar. Eu acho que, às vezes, cada tragédia dá lugar a uma voz. E para mim, a Elza Soares é essa voz política, de amor, de afeto, de generosidade, e por que não, que fale também sobre preconceito”

É muito importante esse lugar de muitas mulheres trabalhando e mais do que isso, em um lugar que é coletivo. Eu sou uma diretora do muito do coletivo, a Andrea, da Sarau Agência, é uma produtora do coletivo. O Vinicius é um autor totalmente do coletivo e em muitos momentos nas leituras do texto buscou as fragilidades das atrizes. Procurou entender o que era de fato uma embocadura delas e conciliar com o texto dele. Em hora nenhuma desejamos esquecer algum detalhe histórico. Queremos passar pelos lugares de afeto e luta: a família, os relacionamentos que em vários momentos desembocaram em ocasiões difíceis, mas que fizeram ela ter a voz que ela tem hoje. Ela está ai onde ela está com o carisma, o talento e essa força porque aproveitou também os piores momentos da vida para renascer. Na abertura do espetáculo as meninas cantam “Dura na Queda” justamente para relembrar esse lugar.

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No próprio elenco, a gente pesquisou lugares de fragilidade das meninas, de dificuldade delas no lugar de ser mulher negra, de ser mulher, do próprio artista. E se fazer necessário como artista.

O musical Elza desenvolve sua narrativa neste lugar da coragem, do risco e de se posicionar frente às questões complicadas e fazer a plateia refletir. Uma das metáforas usadas no espetáculo para transmitir essa mensagem é o que equilíbrio sob baldes, que remetem à canção “Lata D’Água”, de Candeias Junior,  cantada logo no início da peça.

Não é apenas vir ao teatro, aprender uma história biográfica, ou cantar uma música que se gosta. Independente de ser homem ou mulher, negro ou branco, quais são as suas questões hoje na sociedade com a voz feminina? Se você é homem como trata uma mulher, se é você é mulher, como se deixa ser tratada?. Para mim o espetáculo fala disso, além de ser um musical, com uma banda incrível dirigida pelo Pedro Luis com arranjos do Leitieres Leite que trouxeram suas experiências para nosso trabalho. Existe sim, esse lugar de diversão na peça, mas também há um ponto de reflexão. Para mim a arte só vale a pena, se você vai pra casa refletindo. Se você senta na cadeira e sai igual, eu fiz alguma coisa errada” provoca Duda.

Serviço – “Elza”

Onde: Teatro Riachuelo Rio – Rua do Passeio, 40 – Cinelândia – Rio de Janeiro/RJ

Quando: 19 de jul a 30 de set – Quintas a domingos

Quanto:

Quinta e Domingo: 
Plateia VIP: R$100 (inteira) e R$50 (meia)
Plateia e Balcão Nobre:  R$80 (inteira) e R$40 (meia)
Balcão Superior: R$40 (inteira) e R$20 (meia)

Sexta-feira:
Plateia VIP: R$130 (inteira) e R$65 (meia)
Plateia e Balcão Nobre:  R$100 (inteira) e R$50 (meia)
Balcão Superior: R$50 (inteira) e R$25 (meia)
Sábado:
Plateia VIP: R$150 (inteira) e R$75 (meia)
Plateia e Balcão Nobre:  R$120 (inteira) e R$60 (meia)
Balcão Superior: R$50 (inteira) e R$25 (meia)
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Autor: Cláudio Martins

Editor do A Broadway é Aqui! - MTB - 0039321/RJ

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